Classe Média Baixa Records (pt final)
novembro 12, 2007

Recapitulando:
Na primeira parte desse post fiquei viajando em cima da questão do mp3 e futuro da distribuição da música. Indústria, artistas e consumidores perdidos em um frenesi de novas tecnologias. Sem grandes pretensões, apenas levando em conta um ponto de vista bem objetivo e, creio eu até certo ponto, rasteiro mesmo, puxei o assunto e agora termino praticamente desse mesmo jeito (quem elevou a discussão a outro nível bem mais elevedao foi nosso bom Grouchomarxista aqui ó).
Muito bem, falei que a indústria está sem saber o que fazer e ainda aposta em velhas formas de pensar, os artistas buscam o que podem e aproveitam a tecnologia a seu dispor e o público, basicamente, tem uma escolha nas mãos. Como fazer para juntar esses três vértices em apenas um lugar comum?
Tempos atrás pensei cá com meus botões:
- A indústria arrota aos quatro ventos que “os artistas independentes não valem o investimento. Não são profissionais o bastante e nem “comercializáveis” à massa” (apesar de ser um filão gigantesco a ser explorado… lembremos, quando se fala em BUSINESS noções simples de “eu gosto”/”eu não gosto” não podem ser aplicadas);
- Nunca houve um circuito independente tão organizado e crescente como nos tempos atuais. Padecem ainda de muitos problemas, claro, mas até aí…
- O público vai onde melhor lhe aprouver, mas enquanto ele não conseguir achar o que realmente quer, artistas e indústria se debaterão atrás dessas ovelhas desgarradas. A indústria dita regras do que é bom e o que cada classe deve escutar, os artistas tentam através de marketing agressivo chegar aos ouvintes e o público simplesmente reage ao que lhe é apresentado, sem ter maiores convicções de “o que significa isso afinal?!”.
Utopia total, mas vamos lá:
SINGLES
Sim, essa é a minha palavra para a indústria e a independência, o velho single.
Não de forma tão simples assim, é verdade. Vou chegar em algum lugar. Confie. Vejamos:
Historicamente o single nunca deu certo aqui no Brasil. Nos anos passados se tentou lançar alguma coisa nesse formato, mas os artistas escolhidos nunca eram “bons” para venda e o valor pedido por um cd single era apenas 10% a menos que um cd normal. Sem falar que o single é aquela coisa: música de trabalho e mais uma versão ao vivo, remix (algumas vezes uma 4 versões remixadas), demo ou faixa nova mal produzida (sobra de gravação).
Sabemos que um cd hoje tem capacidade de abrigar 80 e poucos minutos de música, os antigos vinis quando passavam dos 40 minutos já perdiam consideravelmente qualidade. Com o cd nunca foi criada tanta encheção de lingüiça para poder vender o produto completo. Já escutei muitos dizendo: “nunca que comprarei esse cd. Olha só, apenas nove músicas e meia hora de som”. Na boa, 30 minutos basta para um cd clássico. Os antigos que o digam. Geravam clássicos verdadeiros em apenas 30 e poucos minutos. Porém, essa demanda fez com que eles se perdessem, produzindo mais do que conseguiam.
Talhando a obra em poucos pontos e trabalhando bem as arestas, um bom artista consegue fazer a mão de cinco boas músicas por ano, deixando-as rolar até a exaustão e apresentando novidades em um menor tempo. Encara-se o single como um cd normal de músicas inéditas. É fato que o ser humano muda praticamente de um dia para outro. Por que seria diferente com o artista, que está sempre em uma ebulição criativa? O formato do cd limita a criatividade, pois impõe uma regra de encher até não poder mais o copo e viver com aquelas canções por quase dois anos, até que a gravadora dê o sinal verde para a produção da próxima obra. Excursões são fatigantes. Relacionamentos são abalados. Promovendo poucas músicas, o sujeito pode logo se concentrar e manter o fluxo criativo em dia.
Para o artista iniciante, seria a forma de desaguar seu material e colher frutos (ou não). A indústria mainstream apostaria nesses “novos talentos”, dando-lhes visibilidade, gerando bate-boca e utilizando de seua infraestrutura para incutir no consumidor uma nova forma de pensar em música, além das obviedades. As rádios teriam material cada vez mais extenso e bem produzido para botar no ar, ampliando audiência e, quem sabe, até gerando novos adeptos. Leva-se assim a forma “internet” musical para o público. Informação rápida. Quanto ao público, garanto que se adaptaria rapidamente a esse esquema e a essa “nova cultura”.
Não saberia dizer dos custos, mas convenhamos, há alternativas:
- CD físico na loja por preço justo e módico (digipacks poderiam ser usados da mesma forma como se embalavam vinis);
- Download remunerado (coisa que a Trama Virtual já faz e parece dar resultados mesmo);
- Possibilidade do consumidor online escolher criar um cd para si com as faixas preferidas de seus artistas (remunerando individualmente) com algum tipo de limite (duas bandas por cd se quiser o single completo, 10 faixas se escolher mais que dois artistas) e cobrando o valor justo e módico pelo download (o que se vê atualmente nos downloads legais das gravadoras é a cobrança de um valor igual ou pouco menor de um cd físico na loja… o que convenhamos é uma barbaridade… cai por terra a palhaçada de “custos” do cd na hora de fazer download e ainda assim querem cobrar igual…).
Quanto ao cd “full”, ele não precisaria ser extinto. Essa idéia do single privilegiaria em princípio os artistas novatos e medalhões que quisessem se utilizar. Quanto ao download, ficaria aberto à todos sem restrições. A demanda e a procura podem se encontrar dentro dessa panorama.
Muito disso tudo passa também pelos artistas não terem medo de cair na estrada e levar sua música ao maior número possível de pessoas. Por mais que todos estejam enclausurados em casa, um show ainda é uma celebração. Reconheço que, mesmocom esse esquema aí de cima, grana mesmo poucos ganhariam. Aí vem a segunda parte: com o menor custo de produção, as gravadoras poderiam investir mais em divulgação e apostar em turnês. Junte as bandas com seus lançamentos e jogue-os na estrada. Faça-os suar, pois nada vem fácil mesmo. Com uma crescente aposta da indústria, os promotores de show têm mais com o que jogar, do que apenas apostar em cartas marcadas. A demanda geraria uma profissionalização maior de técnicos e equipes e as bandas teriam uma boa estrutura para realmente fazerem seu trabalho (aí vem também o lance da indústria qualificar seus empregados ao invés de demití-los simplesmente, aproveitando o Zé Bedeu lá que prensava cds para roadie, técnico de som, luz, carregador, enfim, uma vez que o cast estaria sempre rodando por aí).

Sim, sim, como eu disse, UTOPIA colossal. Simplória a idéia? Tu achavas que eu ia revolucionar? Nope baby, o negócio é chegar em algum lugar e muitas vezes a resposta está debaixo dos nossos narizes. Brainstorm. O que não é mais possível é lutar fogo contra fogo. Na hora que se entender o outro lado da história é que será possível armar um esquema bem feito, aproveitando as forças e fraquezas do oponente.
Espero ter chegado em algum lugar. Confesso que muitas vezes penso, penso e penso no que escrever e na hora de digitar muitas outras coisas escapam. Certamente virão novos insights adiante, mas por hora, acho que já está de bom tamanho.
Abrá!
novembro 13, 2007 at 4:11 pm
Matou. A. Pau.
E é isso.
Abraço!
novembro 15, 2007 at 1:32 am
Minha modesta opinião eu escrevi no meu blog. Dá uma olhada lá.