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Há horas venho pensando no problema geral da troca de arquivos pela internet e pirataria.

Ainda não sei bem se tenho material o bastante para fazer um post a respeito, mas trago aqui pra ti algumas percepções e, quiçá, uma idéia sobre o assunto na parte 2 desse post.

Vão aí alguns tópicos:

- Atualmente só lança cd mesmo quem pode. Gravadoras com verba para tanto e artistas independentes que têm um pé de meia fora da música que possa bancá-lo. O custo para gravação de uma banda independente em um estúdio decente (a não ser que queira uma gravaçãozinha bem tosca) de, pelo menos 10 músicas, gira em torno de R$ 1000. Pouco? Talvez não seja caaaaaaro, mas eu não tenho essa grana sem deixar de lado várias outras coisas mais importantes na minha vida.

- As gravadoras choram de bobas que são. Tentam enfiar goela abaixo um modelo de distruição que dava certo até poucos anos atrás. Lamento queridos, adaptem-se! Essa é a palavra da hora. Seus argumentos de que “cd pirata estraga o aparelho” e “o investimento é grande demais em pessoal e distribuição” já eram. Cd pirata pode estragar o seu aparelho?Até pode, não é mentira, mas você precisa saber onde ele foi gravado e em que condições. Hoje em dia qualquer aparelhinho já tem condições de queimar um cd com ótima qualidade sem acabar com sua leitora. “Investimento é caro demais em pessoal e distribuição”? Aí vem um dos pontos da adaptação. Se as gravadoras não querem investir no seu pessoal, qualificando a mão de obra já existente e contratando experts de tecnologia da informação, realmente ficará difícil competir. Isso vai desde o sujeito que embala o cd até o executivo CEO. A indústria musical não pode mais ser feita apenas por engravatados.

- Um dos argumentos da indústria para o valor alto do cd na loja é que “historicamente, o produto – desde o vinil – é cobrado na razão de 10% do salário mínimo”. Ok… será que eles entendem que 10% do salário mínimo de hoje faz uma falta tremenda no fim do mês? Será mesmo que o custo é assim tão alto para venda? Sabemos por a+ b que o custo de fabricação de um cd (matéria prima, impressão, gravação e caixinha) não passam dos R$ 5 unitário. O restante do valor é composto apenas por impostos, atravessadores e margem de lucro. Enquanto isso no reino de Camelot, o cdzinho vem por R$ 5, no máximo. Um valor bem mais de acordo com a capacidade econômica do salário mínimo, ou tu achas que não? Competir com isso é desleal, mas a indústria (engravatados e artistas) ao invés de estudar uma forma de conseguir oferecer um produto em condições de fazer o indivíduo ir até uma loja convencional com preço justo, prefere congelar-se no tempo e culpar VOCÊ pela pirataria. Aliás, dentro do mesmo assunto, mas um pouco mais à esquerda, causa-me estranhamento essa luta toda contra a “queima de cds”, enquanto diariamente somos bombardeados com propagandas de servidores de internet e aparelhos de som e vídeo que oferecem a mais nova tecnologia para que VOCÊ queime seus próprios cds e dvds e VOCÊ tenha uma banda larga tão rápida que possa baixar jogos, vídeos e músicas em tempo nano. Pois é, VOCÊ é o culpado…

- Não tenho dados estatísticos para provar a próxima tese, mas acho que ela é bem fácil de se entender e de se compreender. Baseia-se apenas na observação objetiva dos tempos que foram e os que são:

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De uma forma bem generalizada, quando você comprava um disco nas décadas do século passado, o gravava para uma média de 3 pessoas (alguns mais, outros menos). Dessas três pessoas, algumas conseguiam regravar e passar adiante, mas normalmente era preferível ou achar outra fonte, ou comprar o produto, já que a gravação de fitas k7 perdia muito em qualidade na “recópia”.

Assim foi por anos a fio. No início da comercialização das fitas k7, a indústria inteira se voltou contra esse mal que destruiria suas bases. Fato: descobriram rapidamente que não era o caso. Porém, pela primeira vez, o consumidor não dependia do produto vindo unicamente da matriz, já tinha o poder de editar os trabalhos dos artistas fazendo as famosas “mix tapes” ou simplesmente escolher se iria comprar ou não o disco depois de escutá-lo com calma em casa, no carro, no trabalho, etc.

Com o advento da fita k7, bandas ao redor do mundo tiveram a chance de gravar seu material e distribuir para quem quer que fosse. Bastava uma gravação e uma fita k7. Ainda que a ação fosse muito mais local do que global, era possível “espraiar” o trabalho dos artistas.

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O que temos hoje é a disseminação total e inclusive no esquema de vai-e-volta e interseccionado. O que antes era “local” se tornou global por inteiro. Para os independentes então é quase um sonho em termos conceituais, pois elimina por inteiro qualquer atravessador no caminho de sua arte para o ouvinte. Muitas vezes a única forma de se escutar aquele artista que você lia a respeito numa revista importada na banca era correndo até um importador de cds e comprando no escuro. Foi-se o tempo, podemos escutar artistas que jamais sonharíamos existir simplesmente buscando-os no MySpace ou no Google.

A venda de cds caiu dramaticamente com esse esquema. Agora você já nem sabe mais para quem está “passando adiante”. Seja pela questão custo, seja pela praticidade de escolher suas músicas em casa, nunca o consumidor teve tanto poder nas mãos.

Um parênteses: As gravadoras são (para o bem ou para o mal) necessárias. Podemos levantar aqui a bandeira de que “esses gananciosos inescrupulosos têm mais é que se ralar”, mas saem eles entram outros. Como for, é preciso uma infraestrutura para poder colocar os artistas na mídia e no mundo de maneira massiva. Nenhum esquema que queira sucesso amplo vingará remando sozinho. Hora ou outra se fará necessário uma organização. Fecha parênteses.

Claro que isso tem um custo. Ético. Sejamos realistas: Você não está pagando pelo trabalho alheio a não ser em casos específicos que os próprios artistas dispõem gratuitamente mp3s para baixar. Qual lado tem razão? Você que quer ouvir música, mas se dependesse do que a indústria brasileira põe à sua disposição e pelo valor que cobra, nunca mais escutaria nem rádio? Ou a indústria, que não está nem aí para você (nunca esteve, não nos enganemos), mas que sai lesada? Que alternativas temos num momento de transição que não tem um outro lado? A transição vinl/cd foi clara e pacífica. E agora? mp3 é o futuro? O próprio mp3 já foi declarado morto pelo fashionistas da tecnologia. Que formato teremos adiante para distribiução de músicas?

Recentemente o Radiohead lançou seu álbum In Rainbows para download, sendo que quem baixasse deveria pagar o que achasse justo (dizem que a média gira em torno de U$ 10) . O White Stripes colocou seu Icky Thump em uma versão limitada de pendrives com a forma de seus dois integrantes. O Nine Inch Nails também usou de algumas artimanhas mais marketeiras para seu Year Zero (pendrives escondidas em shows, músicas extras no site…). No Brasil, não sei se foi caso pioneiro, mas um dos primeiros conhecidos, o MQN de Goiânia apresentou um Manifesto e projeto “Fuck CD”, que promete 5 singles para download gratuito e, ao final, o lançamento de um vinil com todas as músicas juntas. Assim, o maior problema das bandas atualmente é tornar o produto oficial mais interessante para os consumidores do que um cdzinho com capinha de papel xerox ou uma fria pasta de mp3 no computador. Não conheço uma pessoa que não concorde em pagar um valor justo pelo cd ou o produto que for oficial se puder.

Finalizando essa primeira parte, preciso dizer que tenho agumas idéias de como os problemas poderiam ser solucionados, tanto para as gravadoras, quanto para os artistas (mainstream e independentes) e público. Provavelmente a Veja me chamaria de “abobado esquerdóide” e você dirá que estou completamente errado ou que sou um “abobado sem noção”. Pelo menos eu tento… Quer saber quais são? Só no próximo post…

Abrá!

6 Responses to “Classe Média Baixa Records (pt 1)”

  1. Ziza Says:

    Lindo jaleco!

    ;)

  2. Tiago Says:

    Boua hein rapá.

    Vou bater uma bola com essas idéias tuas aí lá no grouchomarxista.

    Abraço!

  3. marz Says:

    Posso ser sincero? Ainda que com todas as vantagens óbvias de se ter acesso a tudo ao mesmo tempo agora de atualmente, eu prefiro o método antigo e os velhos tempos. Banalizou geral.


  4. [...] Analismos Mimetistas trouxe dia desses uma análise bacana sobre a crise da indústria fonográfica. O Álcio, pra quem [...]

  5. Márcio Says:

    Pra mim, o CD fisico morreu.Não tem volta.É só digital, sem tracklist, sem capa, sem cara… somente o som circulando por aí.Nada glamuroso.Mas fazer o que né??


  6. [...] Analismos Mimetistas I am he as you are he as you are me and we are all together « Classe Média Baixa Records (pt 1) [...]


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